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Cozinhar com

Venez j'vais vous aider. On descend et hot c'est parti - Amélie Poulain

À Conversa com (Bárbara Oliveira)

A Bárbara tem a sensação que nasceu com o gene DRD4-7R, responsável por determinar se alguém prefere a comodidade de casa ou a urgência de viajar, assim sendo, de forma muito amável, também se aventurou a responder a umas quantas perguntas e ao desafio por mim proposto, deixando o meu blogue, tal qual um dos seus objetivos com o mundo, "um bocadinho melhor". 
O dia mundial do livro foi ontem, mas só hoje é que vos presenteio com esta leitura que certamente vos fará viajar! Afinal de contas não é isso que as boas leituras nos fazem?

 

O desafio foi ilustrar através de uma fotografia a seguinte frase de Antoine Saint Exupéry: 

 

“Sou um pouco de todos que conheci, um pouco dos lugares que fui, um pouco das saudades que deixei e sou muito das coisas que gostei"  

 

Desafio 1

 

Obrigada por este desafio! É mesmo verdade que a Bárbara de hoje é isso tudo. A Bárbara que hoje responde às tuas perguntas “construiu-se” em todas as experiências que teve até agora. A frase começa com “Sou um pouco de todos os que conheci” e essa é talvez a maior das verdades, aprendo muito com cada pessoa que se cruza comigo. Depois claro, os lugares têm sempre algo a ensinar também. E as saudades então…ai as saudades! As saudades da “minha realidade” e que valorizo sempre de outra forma quando me distancio dela durante algum tempo. Por isso sou isso tudo! É uma frase com a qual me identifico bastante, pelo que escolhi tirar uma fotografia em que eu apareço a olhar para o horizonto com o pôr-do-sol (desculpa-me o clichê por favor!) porque é de facto o que representa para mim a “absorção” de tudo o que vivo. Tirei esta fotografia no meu café favorito da Ilha de Moçambique que se chama “Rickshaw”. Rickshaw (riquexó em Português) é um meio de transporte e não tivesse eu uma certa paixão por meios de transporte, que achei que poderia ser uma boa representação dos lugares que já fui e que me “construíram”. Bem como, por ser um transporte antigo consegue-me dar um sentimento de nostalgia, ou de saudade, pelo que achei que seria um bom cenário para ilustrar a frase que me pediste! Espero que gostes!

 

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1. Notei que umas das imagens que te poderá definir, para além de todas as tuas incríveis fotografias de viagens – vão ver tudinho no instagram @wanderandnutrition! – é a de uma fruta – O Ananás! Como ambas sabemos, é bom para a digestão porque contém uma enzima, a bromelaína, que tem influência positiva nesse mesmo processo. Agora pergunto-te, porquê o ananás? Poderíamos dizer, metaforicamente falando, que tal como esta característica do ananás, imagem que atribuis ao teu blogue Wander and nutrition é uma forma de “digerires” tudo o que vais vivendo (e vendo) – tanto de bom, como de menos bom – nas viagens que fazes, inclusive a que decorre neste momento por Moçambique?

Querida Estefânia, engraçado pois nunca tinha visto as coisas nessa perspetiva! Mas faz de facto muito sentido. Conseguir digerir tudo o que vivo ao longo das viagens e das experiências que vou vivendo é algo essencial para poder selecionar aquilo que devo ou não reter para mim. Tal como no processo da digestão, em que o nosso organismo seleciona aquilo que vai absorver e aquilo que vai deitar fora, também nós deveríamos ter a capacidade de reter aquilo que nos aumenta enquanto pessoas e “deitar fora” aquilo que nos pode tornar mais pequenos, deixar mais frágeis ou que tira o melhor de nós. Todas as experiências e as fases da vida que vivemos, de uma forma ou de outra, deixam-nos mais cheios de saberes e emoções que nos vão completando e vão formando a pessoa que somos e que queremos ser.
A imagem do ananás foi selecionada por ser um alimento colorido e apelativo: a sua grande coroa verde, que nos pode lembrar que devemos andar sempre de coroa e de cabeça erguida no nosso dia-a-dia. A sua casca rija, que nos recorda a força com que sempre devemos permanecer, mas que envolve um fruto doce e com uma textura muito especial e única, lembrando-nos também que é assim que devemos ser: doces, especiais e únicos.

 

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2. Duas das vinte dicas que dás para sermos saudáveis é: “Ri-te. Ri-te muito” e “Não te compares com os outros”. Na tua opinião, achas que a sociedade atual está a caminhar no caminho certo – que será colocar em prática algumas das dicas faladas – ou pelo contrário – está a tornar-se cada vez mais sisuda e sem individualidade?

Acho muito que os conceitos de saúde e felicidade estão inegavelmente interligados. Pessoas felizes e positivas são, normalmente, mais saudáveis. E mesmo que a vida lhes pregue uma partida, conseguirão reagir e atuar melhor se o seu estado-espirito for positivo perante a vida. Também a saúde atua na felicidade das pessoas, será até mais fácil ver neste sentido. Uma pessoa com saúde acaba por ser uma pessoa mais feliz, mais grata por estar capaz de viver o seu dia-a-dia e por poder partilhá-lo com as pessoas que mais ama, na sua melhor condição.
Gosto de pensar que somos todos diferentes, e que num todo, em sociedade não haja um caminho 100% certo que estejamos todos a seguir. Desde a origem do ser humano, tenho a certeza que já houve muitas modas, muitas tendências e a verdade é que todos nós caminhamos, nem que seja um pouco, para essas modas e tendências. É também uma estratégia, por vezes inconsciente, de nos sentirmos parte da sociedade, o que não significa necessariamente que nos estejamos a tornar pessoas sem individualidade. Infelizmente, acho que muitas vezes somos atacados por situações que nos deixam mais frágeis e com uma autoestima mais baixa, levando-nos a compararmo-nos com outras pessoas que estejam em situações que nós consideramos melhores que a nossa. A verdade é que crescemos muito a comparar-nos com ou outros o que acaba por nos deixar com o foco no exterior e não no nosso interior. Devemos ter a capacidade de reconhecer que nunca sabemos, nem vemos o todo de uma pessoa e devemos saber que o nosso foco deve ser em nós próprios, isto é, não devemos querer ser iguais ou melhores que X pessoa, devemos sim querer ser melhores do que aquilo que fomos até agora. Só focando em nós próprios conseguimos alguma mudança sustentável e é isso que quero transmitir quando digo “ Não te compares aos outros”. 

 

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3. Dizem que “rir é um dos melhores remédios”, mas a prática de atividade física regular e uma alimentação equilibrada, saudável e variada, também. Tendo tu, pais professores de educação física, certamente esta premissa sempre foi incutida. Fala-nos um pouco sobre a tua relação com o exercício e a alimentação saudável.

É verdade, sou a filha dos “professores fixes”. Os professores de educação física são sempre os “mais fixes”, não é verdade? Cresci sempre muito ligada à atividade física e não me lembro de um ano da minha vida em que não tivesse praticado algum desporto. Comecei pela ginástica, que foi e é uma grande paixão. Mais especificamente a ginástica acrobática que pratiquei desde os meus 6 anos até ter sido obrigada a desistir com 16 anos por estar a ter notas decadentes no ensino secundário. Ao mesmo tempo que fazia ginástica acrobática cheguei a fazer Ballet, Hip-Hop, Trampolins, Tumbling, Patinagem Artística, Surf e ainda joguei ténis (muito provavelmente estou-me a esquecer de algum..). Na escola , as aulas de educação física eram as minhas favoritas e foi sempre o que me ajudou a subir a média.
Sempre acompanhei também o meu pai em caminhadas pela Serra de Sintra, passeios de bicicleta, voos de parapente, experiências de mergulho, que ele organiza e participa desde que me lembro! Sempre fui muito motivada pelos meus pais para praticar atividade física.
Em relação à alimentação saudável a história é outra (risos). A minha mãe nunca foi uma grande cozinheira então as nossas refeições sempre tiveram de ser muito… digamos “práticas” (aka alimentos já preparados ou refeições daquelas já prontas). Posto isto, o meu perfil nutricional nunca foi o melhor. Até há pouco tempo sempre fui assim mais para o “fofinha”. Eis que comecei a licenciatura em Ciências da Nutrição e a situação começou a melhorar, aliás, a situação mudou por completo. Não fiz uma “dieta para emagrecer”, simplesmente alterei o meu estilo de vida: comecei a alimentar-me corretamente e mantive sempre a prática de atividade física. Antes de vir para Moçambique frequentava um ginásio (que adoro e tenho imensas saudades), mas como aqui não há ginásios tive de me motivar para manter uma prática (quase) diária de exercício. Corro pela Ilha de Moçambique e faço exercícios localizados no telhado de minha casa com uma vista incrível sob este pedaço de terra.

 

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4. Em Portugal vivem-se tempos de “aderência a modas”, nomeadamente à moda dos considerados “superalimentos”, produtos que grande parte do mundo da nutrição (e não só) nos últimos tempos tem andado a pregar. Em Moçambique, acredito que não haja essa aderência - nem pouco mais ou menos – por indisponibilidade dos produtos, capacidade financeira para gastar nisso, e se calhar mesmo, por desconhecimento. Uma das coisas que dizes fazer é “desenrascar com os alimentos simples”. Assim sendo, dou-te a escolher: alimentação “keep it simple” ou “aderir às modas superalimentosas”. Porquê?

Eheheheh, fizeste uma boa pesquisa de tudo o que andei para aí a dizer Estefânia! Então, primeiro há que saber o que é um superalimento. Segundo o que aprendi, o termo Superalimento é utilizado para descrever alimentos com alto valor nutricional e com vários benefícios para a saúde, contudo não passam de alimentos simples e naturais também, talvez com um acesso mais restrito. Mas este acesso também depende muito de onde estamos, não é? Por exemplo, aqui em Moçambique não tenho acesso a clorelas, spirulinas ou açai. Mas por outro lado, tenho acesso a Moringa! Quem já ouviu falar da Moringa? Estão algumas informações no meu blog: https://wanderandnutrition.wordpress.com/2017/02/14/moringa/. Acredito que daqui a uns tempos vá ser também um dos alimentos da “moda” e aqui é algo já muito usado e consumido. Tal como o famoso óleo de coco, que agora está na berra. Aqui é uma das gorduras mais consumidas, pois o seu valor económico é bastante acessível comparando com outras gorduras como o azeite.
Quero com isto dizer que não sou “contra” aos alimentos da moda, desde que sejam consumidos com moderação (como tudo, correto?) e sabedoria. Por isso, a minha resposta à tua pergunta torna-se complicada. Será que pode ser “keep it simple and natural”, que não invalida também o uso e consumo destes famosos “superalimentos”? Por favor aceita esta resposta.

5. Acho-te verdadeiramente uma rapariga sonhadora, que busca ascender, tal como um balão de ar quente, pessoal e profissionalmente em prol do Bem! Como tu o dizes, acerca da tua ida para Moçambique fazer o estágio à Ordem dos Nutricionistas, “vim cá tentar deixar o mundo um bocadinho melhor do que como o encontrei” – certamente conseguiste-o! Qual o próximo destino/mundo que gostarias de deixar um bocadinho melhor?

Tens muita razão Estefânia, sou uma pessoa muito sonhadora, por vezes demasiado utópica ao ser louca o suficiente a achar que posso mudar o mundo. Mas também acho que se não forem loucos como eu a mudá-lo, quem será?
Estefânia, sabias que é responsabilidade do Homem colocar o balão de ar quente no ar? Também é o Homem que o vira ora para a esquerda, ora para a direita. Mas o seu percurso, esse é “escolhido” pelo vento. Também Moçambique não foi uma escolha minha, costumo dizer que foi Moçambique que me escolheu a mim (bom, Moçambique e a ONGD HELPO), porque quando me candidatei a este estágio esperava ir para São Tomé e Príncipe, mas afinal acabei aqui, nesta Ilha lindíssima que é a Ilha de Moçambique.
Há dois anos tive uma experiência de voluntariado nas Filipinas que também me marcou imenso, nessa altura conheci 3 Indianos por quem me rendi completamente. Desde então que sinto uma imensa vontade de ir explorar a Índia e toda a sua cultura maravilhosa. Esse talvez fosse um sítio que gostasse “deixar um bocadinho melhor” até porque também apresente elevados índices de pobreza e de desnutrição. 

Vou direcionar o meu balão de ar quente para aí, mas quem sabe onde me leva o vento entretanto?!

 

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